Wednesday, November 30, 2016

O financiamento de um RBI em Portugal

Mesmo um RBI de 200€ mensais requer cerca de 25.3 mil milhões de euros. (...)

Um método de financiamento que se pretenda viável teria de se focar não numa hipotética estrutura económica, mas numa transição possível para um RBI plenamente desenvolvido, isto é, tendo em conta as prestações sociais já existentes cujo desígnio não está afinal distante daquele que o próprio RBI afirma alcançar. Sob este prisma, os custos totais de financiamento tornam-se enganadores: o que é importante do ponto de vista do financiamento é estabelecer a carga fiscal adicional que é necessário arrecadar para colocar de pé o RBI. Ora, existindo já um conjunto de prestações sociais pagas e administradas pelo sector público, uma primeira possibilidade seria conceber uma articulação do RBI com estas prestações. Consideremos agora o desenho de uma proposta: a eliminação de todos as prestações sociais de montante inferior ao RBI (que seriam substituídos por este), e a integração do RBI em todos as prestações sociais e subsídios de valor superior. De acordo com os orçamentos da SS e da CGA para o ano de 2011, o primeiro passo representaria uma poupança potencial de cerca de 2 mil milhões de euros [Despesa com Rendimento Social de Inserção, Abono de Família e outras prestações da SS (2011)]; com o segundo, a poupança obtida seria de cerca de 7 a 9 mil milhões de euros [Cálculos do autor. Este valor inclui a poupança por integração do RBI nas Pensões de Velhice da SS e da Caixa Geral de Aposentações, no Subsídio de Desemprego e na Pensão de Invalidez. Não inclui as despesas com o Subsídio de Doença e a Acção Social da Segurança Social que representam uma despesa conjunta de cerca de 2 mil milhões de euros (2011)] . Com esta combinação de eliminação de subsídios inferiores e integração do RBI nos superiores alcança-se portanto uma poupança de pelo menos 9 mil milhões de euros, que representaria cerca de 35% do montante total necessário. (...)

Faltaria ainda garantir dois terços do financiamento, isto é, 16 mil milhões de euros. Um RBI que pretenda de facto contribuir para uma menor desigualdade na distribuição de rendimentos deverá ser conjugado com a reformulação do IRS.

Os "agentes russos"

O Washington Post desvendou uma suposta lista de sites que estarão ao serviço da Rússia (aparentemente compilada pelo método de «se achas que esse site é um site de propaganda russa, informa-nos» - «The YYYcampaignYYY is the crowdsourced application of "manual analysis", which is what we call the remarkably easy-to-do process of methodically checking to see whether a particular social-media account, commenter, or outlet qualifies as Russian propaganda, and calling it out it if it does. Anyone can join this campaign, and we hope you will do so.»).

Desta lista costumo ler o antiwar.com e o unz.com; ocasionalmente também leio o lewrockwell.com e os sites da wikileaks.

Já agora, sou só eu que acho o slogan "Your Friendly Neighborhood Propaganda Identification Service, Since 2016!" tão ridículo que isto até parece gozo, ou ele próprio mais um dos sites de notícias falsas?

Tuesday, November 29, 2016

Ainda a "classe trabalhadora" norte-americana - recordações dos anos 70 (II)

Na mesma altura, tanto as greves selvagens como o "populismo" de direita e de esquerda estavam na moda, e por vezes protagonizados pelas mesmas pessoas. Como Jesse Walker refere aqui, nas primárias Democráticas de 1972, em Detroit, Michigan, grande parte dos votantes (aparentemente os mais "classe trabalhadora") estavam indecisos entre George McGovern e George Wallace (o candidato conotado com a juventude radical anti-guerra versus o candidato dos conservadores sulistas).

Um artigo mais completo sobre a evolução da "classe trabalhadora" nos anos 70 (ou pelo menos de um operário de Detroit é Introduction to Stayin' Alive: The 1970s and the LastDays of the Working Class[pdf], por Jefferson Cowie:

Ainda a "classe trabalhadora" norte-americana - recordações dos anos 70 (I)

The national US Postal Service wildcat strike, 1970, por Jeremy Brecher (publicado por libcom.org)

The Teamsters wildcat strike, 1970, por Jeremy Brecher (publicado por libcom.org)

Wildcats In The Appalachian Coal Fields, por William Cleaver (publicado por libcom.org)

Wildcat: Dodge Truck June 1974 (publicado pela University of Texas)

The miners’ strike of 1977–78, por Adam Turl (International Socialist Review)

Wildcat Strikers Close Metro System, 1978 (Washington Post)

Let Us Not Forget! Postal Workers Wildcat Strike of 1978, por Jeffrey B. Perry

Tuesday, November 22, 2016

A "classe trabalhadora" norte-americana

What So Many People Don’t Get About the U.S. Working Class, por Joan C. Williams (Harvard Business Review). Um artigo interessante sobre a chamada "working class" norte-americana (como traduzir isto? "Classe trabalhadora"? "Classe operária"? Mesmo esta escolha se calhar não é isenta de implicações), independentemente de se se concordar ou não com o que ela diz (muitos aspetos do texto, desde a autora aparentemente usar "working class" e "white working class" de forma indiferenciada - como se fossem sinónimos - até ao que me parece uma recomendação da tolerância pela violência policial, são - pelo menos para mim - "problemáticos").

Alguns comentários que me ocorrem acerca de algumas passagens do texto:

One little-known element of that gap is that the white working class (WWC) resents professionals but admires the rich. Class migrants (white-collar professionals born to blue-collar families) report that “professional people were generally suspect” and that managers are college kids “who don’t know shit about how to do anything but are full of ideas about how I have to do my job,” (...) For one thing, most blue-collar workers have little direct contact with the rich outside of Lifestyles of the Rich and Famous. But professionals order them around every day. The dream is not to become upper-middle-class, with its different food, family, and friendship patterns; the dream is to live in your own class milieu, where you feel comfortable — just with more money. “The main thing is to be independent and give your own orders and not have to take them from anybody else,” a machine operator told Lamont.

Isto fez-me lembrar um autor (Keith Preston) que eu costumava ler (com opiniões políticas dificilmente classificáveis), que a dada altura dizia que o sonho dele era um movimento que combinasse o populismo à George Wallace com a doutrina económica dos Industrial Workers of the World...
The Democrats’ solution? Last week the New York Times published an article advising men with high-school educations to take pink-collar jobs. Talk about insensitivity. 
Uma coisa que acho que devia ser mais alvo de reflexão é os potenciais efeitos, em termos de degradação moral ou até espiritual, por assim dizer, de uma economia em que a maior parte das pessoas trabalha nos serviços, nomeadamente em serviços de atendimento ao público - não contribuirá para criar uma cultura hiper-valorizadora do bom ajustamento social, do ser "simpático" e "agradável", mesmo que a expensas de outras coisas? Já agora, ver este artigo.
The terminology here can be confusing. When progressives talk about the working class, typically they mean the poor. But the poor, in the bottom 30% of American families, are very different from Americans who are literally in the middle: the middle 50% of families whose median income was $64,000 in 2008. That is the true “middle class,” and they call themselves either “middle class” or “working class.”
Isso parece-me um problema recorrente das discussões sobre a "working class" norte-americana; as definições vão desde os que usam o termo quase como um sinónimo para pobres aos que chamam "working class" a quem não tenha formação universitária (o que incluiria o Bill Gates e a Paris Hilton).
Means-tested programs that help the poor but exclude the middle may keep costs and tax rates lower, but they are a recipe for class conflict.
Isso seria um bom argumento para o Rendimento Básico Incondicional, se não fosse o, na minha opinião, péssimo marketing dos defensores do RBI (que me parece que preferem apresentá-lo como "o programa social que permite viver sem trabalhar" do que como "o programa social que ajuda também os trabalhadores com salários baixos e não apenas os mais pobres").

Monday, November 21, 2016

Irá ser assim?

71 Days to Prepare Before the First Executive Orders, por William Gillis (Center 4 a Stateless Society):

Trump’s promised “law and order” presidency would mean a Christmas list of presents for the police. Exploding budgets and the removal of any pretense of constraining oversight from the Justice Department. Every beat cop in the nation flush with the invigorating knowledge that the President of the United States has their back, with money, legal support, public support, and ultimately the Presidential Pardon. The full extent of what is possible is dark indeed, but even moderate predictions are dire. We cannot afford to plan for the best.

In 71 days Trump will begin turning the ICE into a military operation capable of the industrial-scale ethnic cleansing he promised repeatedly. He will certainly shirk on some promises, but even if his effectiveness at getting all the millions he targets falls short, he will not miss the opportunity to demonstrate power, even if that means something as obscene as the national guard standing openly in sanctuary cities.

In 71 days Trump will approach an FBI already coursing with his fervent supporters and tell them to go ahead and do whatever it takes to get the domestic terrorists that didn’t vote for him. All the bored and overstaffed Joint Terrorism Taskforce offices the Bush administration left behind surveilling vegan potlucks will finally get to just bring the damn hippies in for questioning. The same pattern we’ve seen in countless countries when right-wing populists get into office will play out. Police raiding punk houses and roughing up anarchists for the sheer pleasure of it, finally able to assert their authority over those whose mere existence offends them. And this is the presidency when US police will be given drones with weapons.

In 71 days Trump will immediately turn his vindictive eye upon the media and every journalist he can get his fingers on. The press corp will be gutted and reporters will be threatened. The same tired procedure we’ve seen in dozens of other countries will arrive here overnight. The sort of regime where armed raids are used to conduct tax audits and incidentally bust up equipment. Trump’s number one concern with the Supreme Court justices he’ll stock it with will be — as always — their loyalty to him and their openness to allowing him to sue everyone for libel.

In 71 days Trump will inherit a vast surveillance apparatus of unparalleled scope in the world that will immediately be turned to his benefit against domestic adversaries or dissidents. He will empower those who have been stewing in outrage at their (meager) constraint. The US’ torture program will escalate. Just because he can. Just for the kick of it. American citizens will end up in Guantanamo and black sites around the world, what barriers to this have previously stood will make no sense to Trump. It will not take long, all things considered, before such American torture subjects are not just Muslim.

In 71 days Trump will start asking what can be done about that whole unruly internet thing and all those losers spreading lies. A president already aligned with Russia and with less than zero compulsion to lecture about human rights or leverage the activists within other superpowers will inexorably build a unprecedented global collaboration against Tor and internet freedom. A unified coalition that most of our existing tools were not prepared for.

We will face an America probably more reactionary and authoritarian than Italy under Berlusconi but probably less authoritarian than Germany under Hitler. The proper analogues are probably modern Hungary and Romania. Authoritarian populist “law and order” regimes with some pretense of normal modern life, riven with empowered racists and neighborhood curbstompings. A broadly mobilized reactionary populace and a shattered and demoralized opposition.
De qualquer maneira, faça ou não Trump isso, convém não esquecer quem durante anos permitiu a acumulação de poderes do presidente, permitindo cada vez mais governar por decreto.

Ainda as ideias de Steve Bannon

Steve Bannon and the Last Crusade, por Noah Smith:

I heavily doubt Steve Bannon is the anti-Semite many on the left now claim he is. It's mostly based on one thing that his wife said that he said, about not wanting to send his kids to school with whiny Jewish girls. It's hearsay, about one thing he said in private years ago, which isn't even that anti-Semitic. (...)

I also hear a lot of claims that Bannon is a white nationalist. Some are based on stuff he allowed to be published at Breitbart (e.g., this), but many seem to rely on one thing he saidwhile interviewing Donald Trump, in which he worried that too many immigrant CEOs would reduce "civic society." That's not something I agree with, since I'm strongly and categorically in favor of skilled immigration. But it certainly by itself doesn't peg him as a white nationalist, especially when he vigorously and publicly and explicitly denies being a white nationalist. So if you think he's B.S.-ing about that, your case will have to rely on Breitbart articles.

So what does Bannon believe in? The main articulation of his worldview that I know of comes from this 2014 speech. Essentially, Bannon's worldview seems to have three main pillars:

1. The fruits of capitalism should be more broadly distributed.
2. The West is in a war with radical Islam and must prevail.
3. Secularism contributes to the weakness of the West.

(...)

This "center-right populism" is basically a cross between FDR, Bernie Sanders, and Ross Douthat. Bannon also criticizes "crony capitalism", and says that he thinks a Judeo-Christian ethic facilitates a more equitable form of capitalism.

Bannon criticizes secularism, which is pretty standard among religious conservatives, and also remind me of Ross Douthat. In fact, Bannon's ideas sound a lot like the "reform conservatism" that had been making the intellectual rounds before Trump showed up on the scene.

But the one place where Bannon comes out very strongly against an external enemy is when he talks about radical Islam (...)

Bannon's view is that radical Islam is attacking the West, and must be defeated by a united Judeo-Christian West. (...)

Bannon's call for a "church militant" and a "church of the West" is basically similar to the Holy Leagues that fought the Ottomans in the 1500s. It's not a call to invasion, like the original Crusades, but rather a defensive move. Bannon is calling on the Catholic Church in particular, but also Christianity, Western capitalism, and all other unifying institutions of the West, to act as unifying and motivating forces to fight this struggle. (...)

But I believe that Bannon fundamentally misunderstands what's going on with radical Islam. Some of the malign energy of al-Qaeda, ISIS, and other radical Islamic groups has been directed against the West and against Christians, yes. But most of it has been directed at other Muslims in Muslim countries. Only a very small part of what we're witnessing is a continuation of the eternal clash between Europe and the Middle East. Most of it is an internal civil war within the Islamic Umma.

O estilo argumentativo na internet

Alguns dos meus amigos do Facebook têm partilhado o artigo "The Internet Arguing Checklist", que argumenta que a esquerda (ou os "liberals") costuma argumentar na internet usando os seguintes "truques":

Friday, November 18, 2016

As ideias de Steve Bannon, expostas pelo próprio

A transcrição de uma conferência no Vaticano em que Bannon participou em 2014, onde ele expõe o seu pensamento e responde a questões da audiência. A minha visão do que me parece ser o seu pensamento: uma espécie de "democrata-cristão" favorável a uma aliança com a extrema-direita, convencido que com o tempo está irá abandonar a parte pior das suas ideias.

Já agora, pelo pouco (muito pouco) contacto que tenho com o site Breitbart.com, parece-me mais uma versão radical do conservadorismo dos anos Bush (e, em política externa, com uma linha belicista e pró-Israel) do que outra coisa qualquer.

This Is How Steve Bannon Sees The Entire World (Buzzfeed, via Marginal Revolution)

Jeff Sessions, ministro da justiça dos EUA?

O senador do Alabama, Jeff Sessions, terá sido escolhido para "procurador-geral" (ministro da justiça) do governo Trump.

Há dias o site/revista "libertarian" (isto é, liberal de direita) Reason fazia uma espécie de perfil dele:

More than a decade ago, Sessions was pushing for a fortified barrier on our Southern border, and has never let go of the dream. He has also opposed every congressional attempt at immigration reform since then, of which Reason's Shikha Dalmia wrote, "Sessions has done more than any human alive to torpedo every sensible immigration reform effort and makes no bones about his wish to basically stop all immigration. He moves the goalposts on reform constantly, recently even calling for the elimination of the H-1B visa program for foreign techies, which sent chills down the IT sector's spine."

It's not just illegal immigration Sessions opposes, he's also fond of spreading the canard that all immigrants are a drain on the economy and take the jobs which are the birthright of all native-born Americas, when in fact, the opposite is much closer to the truth. (...)

After previously mischaracterizing certain countries' efforts at drug decriminalization as "legalization" and incorrectly arguing that they have "failed," Sessions lamented that Nancy Reagan's Just Say No campaign against drugs has been relegated to history and replaced by a growing tolerance for the legalization of adult recreational use of marijuana. (...)

In an appearance on Morning Joe in 2009, Sessions sympathized with those who "might feel uneasy" about the prospect of a gay Supreme Court justice, which he described as "big concern."

Unsurprisingly, he also called the Supreme Court's 2015 ruling legalizing gay marriage across the country "unconstitutional" (he had previously voted in favor of a ban on gay marriage to be enshrined in the Constitution), and was one of 31 Senators on the losing side of the 2010 Senate vote to end the ban on gays in the military. (...)

Sessions had been nominated by President Ronald Reagan for a federal judgeship in 1986, but his nomination was torpedoed after multiple allegations that he used racially insensitive language to colleagues were leveled against him.

A former US Attorney (Thomas Figures) and another Justice Department employee (Gerald Hebert) both testified that Sessions had described the National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) and the American Civil Liberties Union (ACLU) as "un-American" and "communist-inspired." For his part, Sessions himself said during his confirmation hearings that these groups could rightfully be called "un-American" when they "they involve themselves in promoting un-American positions," particularly when addressing foreign policy issues.

Hebert also testified that Sessions had claimed these groups "forced civil rights down the throats of people," and Figures (who is black)claimed Sessions had called him "boy" and had said that he used to like the Ku Klux Klan until he found out some of its members smoke marijuana. Sessions claimed he was merely joking about the KKK.

Bonus fact: Sessions voted in favor of a ban on "flag desecration" to be added to the Constitution.

Ainda a eleição de Trump e o "progressismo cultural"

No, “Identity Politics” Didn’t Elect Trump, por Kevin Carson (Center 4 a Stateless Society):

In all the damage assessments and recriminations following the presidential election, one theme I’ve seen way too much of is blaming Trump’s victory on “political correctness.” One person blamed the Left for “demonizing white men” for the past eight years instead of focusing on economic and class issues. Another clutched his pearls about what a dumb strategic move it was to dismiss most of Trump’s supporters as “deplorables.” And at Reason, human dumpster fire Robby Soave — whose shtik seems to be retyping old Reed Irvine and Dinesh D’Souza screeds with his name on them — literally lays the blame for Trump at the feet of campus speech codes, trigger warnings and safe spaces. (No, if anything defeated Clinton it was stay-at-home Democratic voters disgusted by a Democratic Party that embraced way too many of the same neoliberal — not genuinely libertarian — economic policies favored by Reason.)

(...)

But the cultural Right’s sense of grievance is utter nonsense. For people who complain so much about the “politics of victimhood,” they play the victim card better than anybody else.

Long ago, as a child, I can remember hearing old folks complain that “this country’s been going to pot ever since all these people started screaming about their ‘rights.'” And that’s still the attitude of those who talk about “taking our country back.”

Whatever they think of marginalized people demanding their rights, they sure aren’t modest about the rights they claim for themselves. They think they have the right to decide what languages people speak, what religious garb they wear, who they marry, and what bathrooms they go to. And when they talk about PC as an assault on their freedom, what they’re referring to is their freedom to prohibit other people from doing things they disapprove of. You can’t even say “Happy Holidays” to them without them whining about a “War on Christmas.” For all their mockery of “safe spaces” and “trigger warnings,” they’re the most emotionally fragile and easily offended people in existence.

They actually talk about “Thought Police,” and sidle up to other white males with “I guess we’re not allowed to say this any more, but…”

If you compare their complaints to the complaints of the marginalized people they criticize, they’re completely asymmetrical. Women in hijabs have to worry about being verbally and physically assaulted when they leave their homes. Unarmed black people have to worry about being shot in the back and having drop guns planted on their bodies, or being killed in “nickel rides” by sadistic cops. Gay and trans people have to worry about being stomped to death.

So if you think you’re living in a totalitarian nightmare because you have to worry about somebody giving you a dirty look for saying the n-word, or because you’re expected not to throw a tantrum when you see a woman in a hijab or two men kissing, I’ve got the world’s smallest violin. And if you think that’s a sufficient grievance to justify voting for a crypto-fascist just to “teach ’em a lesson,” then yes, you are deplorable.

O colégio eleitoral norte-americano

A favor - Alexander Hamilton, The Federalist 68 (12 de março de 1788):

It was desirable that the sense of the people should operate in the choice of the person to whom so important a trust was to be confided. This end will be answered by committing the right of making it, not to any preestablished body, but to men chosen by the people for the special purpose, and at the particular conjuncture.

It was equally desirable, that the immediate election should be made by men most capable of analyzing the qualities adapted to the station, and acting under circumstances favorable to deliberation, and to a judicious combination of all the reasons and inducements which were proper to govern their choice. A small number of persons, selected by their fellow-citizens from the general mass, will be most likely to possess the information and discernment requisite to such complicated investigations.

It was also peculiarly desirable to afford as little opportunity as possible to tumult and disorder. This evil was not least to be dreaded in the election of a magistrate, who was to have so important an agency in the administration of the government as the President of the United States. But the precautions which have been so happily concerted in the system under consideration, promise an effectual security against this mischief. The choice of several, to form an intermediate body of electors, will be much less apt to convulse the community with any extraordinary or violent movements, than the choice of one who was himself to be the final object of the public wishes. And as the electors, chosen in each State, are to assemble and vote in the State in which they are chosen, this detached and divided situation will expose them much less to heats and ferments, which might be communicated from them to the people, than if they were all to be convened at one time, in one place. (...)

All these advantages will happily combine in the plan devised by the convention; which is, that the people of each State shall choose a number of persons as electors, equal to the number of senators and representatives of such State in the national government, who shall assemble within the State, and vote for some fit person as President. Their votes, thus given, are to be transmitted to the seat of the national government, and the person who may happen to have a majority of the whole number of votes will be the President. But as a majority of the votes might not always happen to centre in one man, and as it might be unsafe to permit less than a majority to be conclusive, it is provided that, in such a contingency, the House of Representatives shall select out of the candidates who shall have the five highest number of votes, the man who in their opinion may be best qualified for the office.
Contra - "Republicus", Anti-Federalist Paper 72 (1 de março 1788):
An extraordinary refinement this, on the plain simple business of election; and of which the grand convention have certainly the honor of being the first inventors; and that for an officer too, of so much importance as a president – invested with legislative and executive powers; who is to be commander in chief of the army, navy, militia, etc.; grant reprieves and pardons; have a temporary negative on all bills and resolves; convene and adjourn both houses of congress; be supreme conservator of laws; commission all officers; make treaties; and who is to continue four years, and is only removable on conviction of treason or bribery, and triable only by the senate, who are to be his own council, whose interest in every instance runs parallel with his own, and who are neither the officers of the people, nor accountable to them.

Is it then become necessary, that a free people should first resign their right of suffrage into other hands besides their own, and then, secondly, that they to whom they resign it should be compelled to choose men, whose persons, characters, manners, or principles they know nothing of? And, after all (excepting some such change as is not likely to happen twice in the same century) to intrust Congress with the final decision at last? Is it necessary, is it rational, that the sacred rights of mankind should thus dwindle down to Electors of electors, and those again electors of other electors? This seems to be degrading them even below the prophetical curse denounced by the good old patriarch, on the offspring of his degenerate son: “servant of servants”. . .

Again I would ask (considering how prone mankind are to engross power, and then to abuse it) is it not probable, at least possible, that the president who is to be vested with all this demiomnipotence – who is not chosen by the community; and who consequently, as to them, is irresponsible and independent-that he, I say, by a few artful and dependent emissaries in Congress, may not only perpetuate his own personal administration, but also make it hereditary?(...) Or, may not the senate, who are nearly in the same situation, with respect to the people, from similar motives and by similar means, erect themselves easily into an oligarchy, towards which they have already attempted so large a stride? To one of which channels, or rather to a confluence of both, we seem to be fast gliding away; and the moment we arrive at it-farewell liberty. . . .

To conclude, I can think of but one source of right to government, or any branch of it-and that is THE PEOPLE. They, and only they, have a right to determine whether they will make laws, or execute them, or do both in a collective body, or by a delegated authority. Delegation is a positive actual investiture. Therefore if any people are subjected to an authority which they have not thus actually chosen-even though they may have tamely submitted to it-yet it is not their legitimate government. They are wholly passive, and as far as they are so, are in a state of slavery. Thank heaven we are not yet arrived at that state.
De qualquer maneira, tanto Hamilton como "Republicus" fizeram a sua defesa/crítica do colégio eleitoral assumindo que iam realmente serem escolhidos eleitores que depois escolheriam o presidente (e que muito provavelmente não haveria maiorias e acabaria por ser o Congresso a escolher o presidente); nunca funcionou assim - desde que houve eleições disputadas (isto é, tirando os dois mandatos de Washington), os delegados ao colégio eleitoral foram sempre eleitos já conotados com candidatos presidenciais, com os votantes a escolherem Fulano ou Beltrano para delegado, não por confiarem na sua capacidade de "possuir a informação e o discernimento necessário para a investigação complexa" para escolher um presidente, mas simplesmente por quererem votar em Jefferson, Adams, Jackson, Lincoln, Roosevelt, Kennedy, Reagan ou Trump, e Fulano e Beltrano estarem na lista de delegados associada ao seu candidato presidencial favorito; ou seja, sempre foi mais uma eleição direta com um método peculiar de apuramento do resultado, do que uma verdadeira eleição indireta.

Já agora, é interessante que a defesa do colégio eleitoral tinha sido feita pelo federalista Hamilton (talvez o mais centralista dos "fundadores" dos EUA) e a oposição tenha ficado associada aos anti-federalistas; porque hoje em dia quase que apostava que o alinhamento é o inverso (com os defensores da autonomia dos estados a defender o colégio, e com os defensores da eleição direta a serem a favor de maior intervenção do governo federal).

Thursday, November 17, 2016

A automatização e o desemprego

[Sobre o assunto: o meu Um argumento a evitar na defesa do Rendimento Básico IncondicionalOs robots vão roubar o meu emprego... ou talvez não, de Miguel Carvalho; e Robôs a roubar empregos, por Pedro Romano]

Será que a automatização, os robots, os computadores, etc., criam desemprego?

Vamos imaginar que uma máquina permite a 1 trabalhador fazer o trabalho que antes era feito por 100; quais serão as consequências disso? Podem acontecer 3 coisas - a) 99 trabalhadores são despedidos; b) mantêm-se os mesmo trabalhadores, mas agora produzindo 100 vezes mais do que produziam antes; ou c) podem passar a trabalhar 1 hora por dia (em vez de 8) e terem 87 dias de férias (em vez de 22) por ano, e no final continuarem a produzir exatamente o que produziam antes. Creio que no mundo real, o que tem acontecido desde a revolução industrial tem sido sobretudo o efeito b), com algum c) à mistura (ou seja, o progresso tecnológico tem originado maior produção e mais tempo livre, não mais desemprego).

As teorias de que "não vai haver empregos para todos" baseiam-se no cenário a), mas porque é que há de ser o cenário a) a ocorrer e não um dos outros?

Progressismo cultural - mau ou bom para o capitalismo?

How the Cultural Marxists Failed by Winning, por Gene Callahan, em The American Conservative:

William Lind described the origins of cultural Marxism as follows:
Following World War I, European Marxists faced a difficult question: why did the proletariat throughout Europe not rise in revolution and establish a new, Marxist order, as their ideology said it would? Two prominent Marxist thinkers, Antonio Gramsci in Italy and Georg Lukács in Hungary, came up with an answer: Western culture. Western culture so blinded the workers to their true, “class” interests that they could not act on them. (...)
This goal, of “saving” us by destroying the villain, Western civilization, was pursued through a multi-pronged attack. This was dubbed, by Marxist activist Rudi Dutschke, “the long march through the institutions.” Western civilization would be eradicated by gradually undermining the family, the local community, the church, the school, and perhaps most especially the university. (...)

By such means, the project of wrecking Western civilization has progressed pretty far. So why isn’t the proletariat casting off their chains and revolting? (...)

Asking a different question leads us to the answer, and that question is, “Why have corporations enthusiastically joined the cultural Marxists in their program of civilizational destruction?”

First off, do you know the old aphorism, “If you’re at a poker table and you don’t know who the mark is, you’re the mark”? If you answered, “Because corporations care about these issues,” well, you’re the mark. (...)

Those at the top of our giant corporations generally don’t care about these issues, at least not in any serious way: they care about becoming richer and richer and securing their positions against any potential threats.

The right answer as to why corporations have “joined” (“co-opted” is more like it) the cultural Marxists is that at some point, our corporate masters figured out that as the progress of wrecking Western culture progressed, people were becoming not revolutionary agents of change, but passive consumers of corporate swill and compliant workers penned in cubicles, nourished by fluorescent grow-lamps. (I am not claiming that corporate CEOs and boards are sophisticated social theorists who have explicitly traced this connection, just that at some point, they noticed, “Hey, this is working out pretty well for us!”) A key point in this learning process was likely when corporations found out that if they just offered “counter-cultural” rock stars enough money, those rock stars would happily would sell soda or credit cards. And such ads, offering packaged versions of sixties-era “individualism” and “rebellion,” were very effective at selling products, enabling marketing messages to slip right past the flower children’s wariness of big corporations.

Corporations found out that without a healthy culture, people are not natural Marxists but natural couch potatoes. With no extended family, no effective church, and no healthy local community to support their lives, people don’t form revolutionary cells: they buy a case of beer or renew their Xanax prescription and spend their non-working hours watching NFL games and the Lifetime network and various types of pornography. This dull, sedated existence is punctuated by certain “feast days,” such as Black Friday, when one can turn over lots of one’s money to corporations (...)
Por vezes há críticas do "progressismo cultural" cujo tom acaba por não ser tão diferente do que alguns dos próprios "progressistas culturais" diriam - esta conversa dos indivíduos atomizados que ficam dominados pelas grandes empresas e mergulhados no consumismo fica bem num site conservador social sem grande entusiasmo pelo capitalismo moderno; mas também não ficaria muito mal num panfleto radical por volta de 1970 criticando o estilo de vida pequeno-burguês (dizendo que é um falso individualismo que fomenta o conformismo) e fazendo a apologia de alguma espécie de comunidade alternativa (desde comunas rurais até à romantização dos bairros étnicos ou de enclaves boémios estilo Greenwich Village, Haight-Ashbury ou Quartier Latin) - mas isso talvez tenha a ver com o fenómeno referido neste texto que já devo ter linkado uma porção de vezes (diga-se que Gene Callahan votou em Jill Stein dos Verdes mas dizendo que se vivesse num estado que estivesse em disputa escolheria Donald Trump, o que me leva a suspeitar que ele próprio não estranhará a ideia de semelhanças entre pólos aparentemente opostos).

Já agora, em 1967, um ativista conservador fez um filme anti-hippie, The Hippies; acerca desse filme, Jesse Walker na Reason comentou "he blames the rise of the counterculture on the forces you'd probably expect a '60s conservative to invoke: progressive education, permissive parenting, World Communism. What makes his film interesting on more than a camp level is that he also blames big business, condemning consumerism and conformity in terms a hippie could love" (outro exemplo de conservadores culturais a usarem quase a mesma conversa que os progressistas?).

Wednesday, November 16, 2016

Uma diferente visão sobre as doenças mentais

No momento em que se discutem assuntos como a compatibilidade ou não entre ser psicólogo e ter determinadas crenças, tal fosse interessante discutir sobre o que é que na chamada "saúde mental" é mesmo conhecimento objetivo e o que são, na verdade, juízos normativos.

Um artigo potencialmente interessante para o assunto - The Economics of Szasz: Preferences, Constraints and Mental Illness[pdf], por Bryan Caplan:

Even confirmed economic imperialists typically acknowledge that economic theory does not apply to the seriously mentally ill. Building on psychiatrist Thomas Szasz’s philosophy of mind, this article argues that most mental illnesses are best modeled as extreme preferences, not constraining diseases. This perspective sheds light not only on relatively easy cases like personality disorders, but also on the more extreme cases of delusions and hallucinations. Contrary to Szasz’s critics, empirical advances in brain science and behavioral genetics are largely orthogonal to his position. While involuntary psychiatric treatment might still be rationalized as a way to correct intra-family externalities, it is misleading to think about it as a benefit for the patient.
E um post do autor aplicando esse raciocínio ao caso do Transtorno do Deficit de Atenção - ADHD Reconsidered.

Note-se que eu estar a postar os artigos dele não implica necessariamente concordância (p.ex., a ideia de que alucinações podem ser consideradas como "preferências" parece-me muito dificil de justificar).

Poderá questionar-se qual a autoridade de economistas para teorizarem sobre doenças mentais, mas se toda a gente dá palpite sobre questões económicas, porque é que os economistas não hão de darem também eles palpite sobre tudo?

Sunday, November 13, 2016

As sondagens falharam? (II)

It Wasn't the Polls That Missed, It Was the Pundits, por Sean Trende (Real Clear Politics):
There is a fast-building meme that Donald Trump’s surprising win on Tuesday reflected a failure of the polls. This is wrong. The story of 2016 is not one of poll failure.  It is a story of interpretive failure and a media environment that made it almost taboo to even suggest that Donald Trump had a real chance to win the election.

At RealClearPolitics, we know that the RCP Poll Average is a powerful tool for gauging election trends and projecting outcomes.  But we also recognize that it is not a perfect tool, and that even when aggregating multiple polls, the margin of error within each survey allows for a range of possibilities to exist.(...)

That is why, early on, we took what some thought was an unusually broad view of what constituted a tossup state, before returning to our traditional definition of a tossup as a state whose separation is less than five points in the RCP Poll Average. So when a state like Pennsylvania, where Clinton led by 1.9 percentage points in the final RCP Poll Average, goes the other way, we aren’t shocked. (...)

Though the conventional wisdom had written off Trump’s chances by Election Day, there was evidence showing it was still a very competitive race.  The final RCP No Tossup Map, based off the final RCP Poll Averages in the battleground states, had Clinton leading by the slimmest of margins in the Electoral College 272-266.  (...)

At 266 electoral votes, Donald Trump stood just one state short of winning the presidency. And with the final RCP Poll Averages in a handful of battleground states showing Trump trailing by just 0.6 percent in New Hampshire, 1.9 percent in Pennsylvania, 2.9 percent in Colorado, and 3.4 percent in Michigan, it was pretty clear that Donald Trump had a very real path to the White House.

A sociologia do trumpismo

Andam algumas pessoas indignadas pelos artigos e notícias que dizem que Trump ganhou com o votos dos eleitores brancos com poucas qualificações (o que é verdade, embora não seja a história toda).

Mas vamos lá ver: há anos que sectores próximos de Trump, como o Unz Review (ou o American Conservative, que não sendo exatamente a favor da pessoa de Trump, alinha no geral por ideias similares às dele) se fartam de publicar artigos a falar na "white working class" (muitas vezes com "male" associado), e na alegada aliança das "elites" com as minorias e com o feminismo contra a "white working class". Não me parece que depois se possa levar a mal quando finalmente a imprensa mainstream lhes dá razão, e reconhece que a "white working class" (conceito que no vocabulário dessa área tem mais a ver com não ter formação universitária do que propriamente com ser aquilo que em Portugal chamariamos de "operário" ou "trabalhador), e sobretudo os homens, contribuiu para a vitória de Trump.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Thursday, November 10, 2016

Os protestos contra Trump (II)

Por outro lado:

People in California are calling for a 'Calexit' from the US in the wake of Trump's win (Business Insider)


Ao contrário dos protestos genéricos, isto já não é totalmente idiota - aqui já há um vislumbre de uma ideia (aparentemente bizarra, mas internamente coerente - algo como "os californianos têm ideias muito diferentes de grande parte dos outros norte-americanos, logo devem seguir o seu caminho") e não apenas uma aparente birra pelos resultados (mas o que não se diria se tivesse havido manifestações similares no Texas há quatro ou oito anos...).

Já agora, o meu cenário para uma crise institucional nos EUA:

1 - Numa eleição presidencial, os Democratas têm mais votos mas os Republicanos ganham no Colégio Eleitoral

2 - Nos estados "azuis", surge uma onda de indignação contra o Colégio Eleitoral ("foi em 2000, foi agora... isto é uma farsa!")

3 - Face à quase impossibilidade de mudar a Constituição e ainda por cima estando constantemente a ouvir dos defensores do Colégio Eleitoral o argumento "os EUA são uma federação de 50 estados; o Colégio Eleitoral existe como uma defesa dos estados contra uma tirania democrática federal", surgem/crescem tendências separatistas nalguns estados "azuis", especialmente na Nova Inglaterra ("É uma questão de defender o poder dos estados? Então o nosso estado - onde 70% vota Democrata - não tem nada que ser governado por um presidente Republicano")

4 - Nalgum daqueles estados da Nova Inglaterra (o Vermont?), é realizado um referendo por iniciativa popular sobre a independência...
Substituir Nova Inglaterra/Vermont por Califórnia.


Os protestos contra Trump

Se fossem protestos contra o sistema do colégio eleitoral, que permite que o presidente seja eleito com menos votos que o seu opositor*, teriam a sua lógica. Mas tal como estão a ocorrer, em que os manifestantes estão praticamente apenas a dizer que estão contra  Trump porque... porque estão  (mais um desabafo emocional do que outra coisa qualquer?), parecem-me uma parvoíce completa.

*E não, não é comparável aos casos português/dinamarquês/norueguês/etc. - nesses casos, os partidos que apoiam os respetivos governos e têm maioria no parlamento tiveram, em conjunto, mais votos que os partidos da oposição.

Wednesday, November 09, 2016

As sondagens falharam?

A respeito da eleição de Donald Trump, muita gente anda a dizer que as sondagens falharam.

Será?

Eu suspeito que a impressão de que as sondagens falharam (mais do que efetivamente falharam) foi porque andava tudo a olhar para as sondagens nacionais (que não interessam para nada - a votação total a nível nacional de cada candidato não passa de uma curiosidade sociológica), e essas davam quase todas a Hillary à frente (e na tal votação nacional que não interessa para nada, ela efetivamente ficou à frente, tal como as sondagens previam).

Na análise estado a estado, que é o que verdadeiramente interessa, não me parece que as sondagens se tenham saído muito mal. Veja-se que comparando o mapa eleitoral previsional do RealClearPolitics (feito, creio, de acordo com as sondagens) com o resultado real, só há um estado em que se enganaram (o Wisconsin, previsto para a Hillary mas ganho pelo Trump):





























Mesmo no mapa sem "toss-ups" (mais sujeito a erros, porque aí tem que se ignorar margens de erro, oscilações de sondagem para sondagem, etc., para não deixar estados em aberto), em 50 estados, houve 3 erros a favor da Hillary (Wisconsin, Michigan e Pensilvania) e 1 a favor do Trump (Nevada):

















Ou seja, as sondagens parecem, no agregado, ter acertado os estados quase todos (incluindo os casos em que pelo menos não falharam porque eram demasiado dispares e/ou apertadas para se poder fazer uma previsão).

Suspeito que o problema foi mesmo dos jornalistas, que criaram a ideia que as sondagens diriam que a Hillary ia ganhar, esquecendo-se de 3 coisas:

a) As sondagens têm margens de erro

b) Mesmo as margens de erro têm elas próprias uma espécie de “margens de erro” – se lermos com atenção a ficha técnica de uma sondagem, com supostamente uma margem de erro de 3%, o que normalmente lá diz é algo como “a margem de erro é de 3%, com um nível de confiança de 95%” (ou seja, continua a haver a possibilidade de o erro real ser maior que os 3%)

c) Em 51 eleições separadas, mesmo uma pequena probabilidade de erro em cada votação é suficiente para virar alguns estados

[Post feito a partir dos meus comentários a este post de Maria João Marques n'O Insurgente]

Post ocasionalmente popular

Segundo o sitemeter, há um post neste blogue que de vez em quando tem uma porção de acessos de repente; hoje é um desses dias (o Vento Sueste hoje já teve 111 visitas em vez das 43 habituais).

Eleições nos EUA - há quatro anos

A "luta de classes" e as eleições nos EUA

Why Obama Will Embrace the 99 Percent, por Nate Silver (New York Times):
(...)

The popular vote is one thing, however. The Electoral College is another — and Romney could have more vulnerabilities there.

(...)

All told, there are 101 electoral votes in swing states that Obama could either put into play or make more secure under the populist paradigm — well more than the 36 he might lose among Virginia, Colorado and New Jersey. 

The reason for the imbalance is that most wealthy whites do not live in swing states but in enclaves that the sociologist Charles Murray calls SuperZIPs. Most of these are in states like New York, California, Maryland and Massachusetts that are very far from being competitive. (There are also a significant number of SuperZIPs in the Dallas and Houston metro areas in Texas, but Obama probably wasn’t going to win the Lone Star State anyway.) 

But what if Rick Santorum were to steal the Republican nomination away from Romney? After his sweep of the contests in Colorado, Minnesota and Missouri on Feb. 7, he looks like a more viable candidate — one who doesn’t seem as beholden to the 1 percent as Romney does. He has been successful at making Obama’s supposed elitism a theme of his campaign. And he is more conservative on social policy than on fiscal policy, which runs against the consensus view in the Virginia and New Jersey suburbs but puts him in line with the preferences of middle-income voters in the center of the country. 

Still, Santorum, who rates as a 68 on the ideology scale (the same as a less-plausible nominee, Newt Gingrich), would probably be weaker than Romney in the popular vote. According to the model, Obama would be a 77 percent favorite to win the popular vote against Santorum given 2.5 percent G.D.P. growth.
Republicans wouldn’t care about that, however, if Santorum carried Ohio and Michigan — and perhaps even his home state, Pennsylvania — places where economic concerns tend to take precedence. Under these conditions, in fact, Republicans might be able to win the Electoral College while losing the popular vote.
Nesta linha, há uns dias uma sondagem feita apenas nos "estados oscilantes", indicava que nestes Santorum teria mais chances que Romney de derrotar Obama (mas isto foi antes de Santorum ter alegadamente sido cilindrado no último debate...). Será que os Democratas que estão a pensar votar Santorum nas primárias Republicanas para lançar a confusão não estarão a cometer um erro muito grave?

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"Santorum", neste contexto, pode ser visto como uma designação genérica para "candidato republicano com um apelo populista blue-collar, com posições bastante conservadoras nalgumas questões sociais mas com menos entusiasmo pelo liberalismo económico do que é comum entre os conservadores norte-americanos"; outros exemplos poderiam ser Pat Buchanan em 1992 e 1996 e Mike Huckabee em 2008.

Eleições nos EUA - há 10 anos

Água na fervura

Os sitios onde Obama e McCain tiveram melhores resultados que Kerry e Bush, respectivamente:


Tirando a Luisiana e os casos expectáveis do Alasca e do Arizona, temos que as maiores subidas de McCain foram no que (sobretudo durante a Guerra da Secessão) poderiamos chamar "Estados fronteiriços" - isto é, estados/territórios esclavagistas que, ou não sederam* (West Virginia, Kentucky, Oklahoma), ou só sederam* depois de começar a guerra (Tennesse, Arkansas), enquanto, quer no "Sul profundo", quer no resto do país, os Democratas subiram (note-se que eu não estou a dizer que este padrão se aplica a todos os "estados fronteiriços" - afinal, Virginia e Carolina do Norte, os grandes sucessos Democratas, também pertecem à categoria "Estados que só sederam* depois de começar a guerra").

A explicação para isso é fácil - em termos percentuais, e olhando apenas para os eleitorado branco, os Republicanos só subiram no Sul e pouco mais. No Sul propriamente dito isso foi anulado pelo peso demográfico dos negros, mas, na zona de transição (onde havia poucas plantações, logo poucos escravos, logo poucos negros) esse efeito foi mais vísivel.

Onde eu quero chegar com isto? Que, se os Democratas obtiveram uma vitória conjuntural (não houve qualquer mudança significativa nos padrões de votação), a sua principal dificuldade estrutural (o apoio que, nas eleições nacionais, os brancos do Sul dão aos Republicanos, mesmo contra os seus interesses económicos - afinal, o Sul e a Appalachia são as regiões mais pobres dos EUA) parece que se está a reforçar.

Ou seja, parece-me que os Democratas conquistaram votos de eleitores flutuantes (que noutra eleição podem passar facilmente para os Republicanos - nomeadamente os votos que Obama obteve entre a alta burguesia), enquanto os conservadores consolidaram a sua base de apoio.

[*O verbo "seder" não se conjuga assim, pois não?]

Friday, November 04, 2016

A escrita cuneiforme destrói a capacidade de concentração das crianças

Comentário que alguém fez no Marginal Revolution (a respeito dos malefícios dos smartphones):

People’s brains seem to be doing just fine, despite a never-ending succession of innovations that will supposedly ruin them. I’m sure some Mesopotamian cranks were warning that young people these days do nothing but read cuneiform.

Maiores salários para os administradores → piores resultados?

The Highest-Paid CEOs Are The Worst Performers, New Study Says, por Susan Adams (Forbes):

Across the board, the more CEOs get paid, the worse their companies do over the next three years, according to extensive new research. This is true whether they’re CEOs at the highest end of the pay spectrum or the lowest. “The more CEOs are paid, the worse the firm does over the next three years, as far as stock performance and even accounting performance,” says one of the authors of the study, Michael Cooper of the University of Utah’s David Eccles School of Business. (...)

Another counter-intuitive conclusion: The negative effect was most pronounced in the 150 firms with the highest-paid CEOs.
Performance for Pay? The Relation Between CEO Incentive Compensation and Future Stock Price Performance, por Michael J. Cooper, Huseyn GulenP. Raghavendra Rau:
We find evidence that Chief Executive Officer (CEO) pay is negatively related to future stock returns for periods up to three years after sorting on pay. For example, firms that pay their CEOs in the top ten percent of excess pay earn negative abnormal returns over the next three years of approximately -8%. The effect is stronger for CEOs who receive higher incentive pay relative to their peers and stronger for CEOs with greater tenure. Our results appear to be driven by high-pay related CEO overconfidence that leads to shareholder wealth losses from activities such as overinvestment and value-destroying mergers and acquisitions.
[Via João Vasco / Esquerda Republicana]

Thursday, November 03, 2016

A opinião de um esquerdista sobre o liberalismo e o conservadorismo

Há dias, André Azevedo Alves escreveu sobre "Liberalismo, Conservadorismo e Livre Comércio".

Na minha condição de não-liberal e não-conservador, uma coisa que me ocorre é que num dos supostos pontos de acordo entre liberais e conservadores talvez haja uma diferença subtil entre as duas correntes, e que até certo ponto os dois pontos de tensão assinalados são exatamente o resultado dessa pequena diferença.

Refiro-me à parte do "respeito pela instituição familiar, pelas formas voluntárias de associação civil e pelo papel dos corpos intermédios" (ou, como se refere mais à frente, "as estruturas intermédias e voluntárias da sociedade"). Neste ponto, há primeira vista (e sobretudo como está formulado no texto) liberais e conservadores parecem defender quase a mesma coisa; mas penso que há uma diferença (claro que se pode questionar se eu serei a pessoa mais indicada para falar sobre liberalismo ou conservadorismo) - creio que os liberais valorizam sobretudo o "voluntário", e os conservadores o "intermédio" (num dos conjuntos de princípios conservadores que elaborou, Russel Kirk diz que um é "conservatives uphold voluntary community, quite as they oppose involuntary collectivism"- mas se se for a ler a descrição que vem a seguir, o ponto principal parece essas comunidades ser locais e pequenas - incluindo os governos locais - mais do que o serem voluntárias; Robert Nisbet, no seu "O Conservadorismo"/"Conservatism, Dream and Reality", parece-me ainda mais explícito que as associação intermediárias não têm que ser voluntárias, até porque inclui as instituições quase-governamentais britânicas e o FED norte-americano como exemplos).

Note-se que podemos ter instituições intermédias mas não voluntárias, como governos locais, ordens profissionais, e mesmo até certo ponto a família (não é voluntária para os filhos menores; e, se não existir divórcio unilateral sem justa causa, mesmo a voluntariedade do casamento é discutível, tendo algumas semelhanças com a famosa questão da escravatura voluntária); isto para não falar de todas aquelas instituições que existiam até há uns 200 anos (corporações de artes e ofícios, igrejas oficiais, autoridades feudais ou senhoriais, escravatura, servidão...) - e que na altura eram frequente tema de controvérsia entre os liberais e conservadores de então - que poderiam ser vistas como formas de autoridade intermédia não-voluntária (note-se que o AAA fala do conservadorismo de "matriz não estatista", o que talvez relativize a relevância das minhas observações).

Da mesma forma, se calhar também poderemos ter instituições de certa maneira voluntárias, mas que sejam tão grandes que já não sejam bem "intermédias" - pense-se no caso de algumas empresas (para quem considere que a relação laboral na empresa capitalista é voluntária); voltando ao Robert Nisbet, este escrevia algo como "para um conservador, uma empresa como  a AT&T, com as suas centenas de milhares de empregados, é algo quase tão assustador como a burocracia federal" (atenção que eu estou a citar um livro que não leio há mais de 20 anos - a citação provavelmente não é exata).

Um aparte - suponho que uma possível consequência da diferença entre "intermédio" e "voluntário" é que a questão da aquisição original da propriedade (nomeadamente da propriedade do solo) talvez seja mais relevante para liberais do que para conservadores: para um liberal a autoridade de um patrão sobre os empregados ou de um proprietário de terras sobre os rendeiros ou caseiros é legítima porque se baseia num contrato voluntário; mas o caráter voluntário do contrato só faz sentido se se considerar que o proprietário é verdadeiramente o proprietário legítimo da empresa ou dos terrenos em questão - se não, não haveria grande diferença entre um proprietário de terras a cobrar rendas aos seus rendeiros e um qualquer senhor feudal a cobrar tributos aos camponeses do seu território (ou um moderno gang a "vender proteção"). Já para um conservador, que considere que o principal seja a autoridade ser local e descentralizada, não fará tanta diferença se a origem remota dos direitos de propriedade atualmente existentes foram transações voluntárias ou não, e se calhar semelhanças que possam ser invocadas entre as relações hierárquicas na sociedade moderna e o feudalismo serão mais uma feature do que um bug (a esse respeito, Nisbet, na obra já referida, conta o caso de um conservador inglês do século XIX, inicialmente anti-capitalista e anti-indústria... até ao dia em que efetivamente visitou uma fábrica em Manchester, vindo de lá fascinado com o que viu, e dizendo  "Nunca se criou um sistema feudal tão perfeito; pessoas e máquinas estão submetidas à vontade de um só homem, e tal não desagrada a alguém com a minha sensibilidade"). No entanto, penso que no mundo moderno, industrial ou pós-industrial, este ponto não é muito relevante, já que estas polémicas sobre quem é ou não é o proprietário legítimo parecem ser sobretudo à volta da propriedade da terra ou dos recursos naturais (bem, a sociedade pós-industrial tem também uma polémica deste género - a questão da propriedade intelectual; mas essa não me parece ter qualquer alinhamento específico com as ideologias políticas tradicionais, sendo largamente transversal às divisões entre conservadores, liberais e socialistas).

Agora podemos voltar ao ponto que eu queria referir - como talvez as tais áreas de tensão entre liberais e conservadores tenham a ver exatamente com a tal subtil diferença entre voluntário e intermédio; ou seja, a essência do tal liberalismo "racionalista" talvez seja a tendência para,  havendo várias autoridades involuntárias, umas mais centralizadas, outras mais locais, ver no poder central o protetor dos indivíduos contra as "opressões" locais (basicamente, é a questão que é abordada aqui: "Advocates of individual liberty may experience the tension (...) any time the Supreme Court rules on a state law that impinges on liberty.") - fazendo leis para "proteger" os filhos dos pais (ou os alunos das autoridades escolares), revogando regulamentos locais ou regionais considerados "opressivos" (em Portugal isso não é muito relevante, mas por exemplo, a história dos EUA está cheia de conflitos entre os direitos individuais e os direitos dos estados, talvez a começar pela Guerra da Secessão) ... e, a nível internacional, a defesa da "ingerência humanitária" contra regimes ditatoriais também pode ser vista como uma manifestação dessa atitude (que por vezes pode animar ambos os lados de uma discussão - no caso do burkini, tanto os que defenderam a decisão do conselho constitucional francês revogando as leis locais que proibiam o burkini, como os que defendiam a proibição com o argumento que muitas mulheres usavam-no por serem obrigadas pelas famílias estavam ambos a seguir a linha de usar o poder do Estado para "libertar" os indivíduos das autoridades intermédias).

Inversamente, o protecionismo de alguns conservadores talvez possa ser visto como uma manifestação da tal tendência para defender o "pequeno" e o "local", mesmo quando as forças que ameaçam a "pequenez" e o "localismo" parecem ser voluntárias (como no caso do comércio internacional). E sobretudo os tratados internacionais de comércio livre (o comércio livre unilateral é um caso diferente), limitando a soberania nacional em nome da liberdade económica, se calhar parecerão a alguns conservadores como uma versão planetária do tal fenómeno dos Estados centralizados limitarem a autonomia local em nome da liberdade individual.

Uma observação final (e se calhar na linha do que já escrevi aqui) é que suspeito que tanto os liberais não-conservadores (com a sua desconfiança face à autoridade, mesmo que descentralizada) como os conservadores não-liberais (com a sua desconfiança face às grandes organizações, mesmo que sejam privadas, como no exemplo dado da companhia dos telefones norte-americana) serão muito mais fáceis de converter a alguma variante de socialismo libertário autogestionário do que os fusionistas liberais-conservadores (veja-se quer a influência dos economistas clássicos liberais sobre o anarquismo individualista - com Ben Tucker a dizer que as suas ideias eram simplesmente "manchesterianismo consistente" - quer a do "socialismo tory", nomeadamente de John Ruskin, sobre o "socialismo de guilda"). E, já agora, noto que eu linko frequentemente para artigos na Reason ou em The American Conservative, mas nem sei se alguma vez fiz algum link para a National Review.

Wednesday, November 02, 2016

"Regresso a Patópolis"

"Return to Duckburg Place", uma banda desenhada "fan fiction", de 1970, feita por Don Rosa (o futuro desenhador oficial das histórias do "Tio Patinhas", na altura com uns 19 anos) e Ray Foushee. Não, não é uma clássica história do "Tio Patinhas".


[Via Duck Comics Revue]