Monday, May 29, 2006

Ainda sobre o Estado Novo e o fascismo

Como eu disse no post anterior, há um contexto em que a questão "o Estado Novo era fascista?" se torna relevante.

Nos anos 30, houve uma grande polémica à esquerda (nomeadamente marxista) sobre o significado do fascismo - a posição oficial da Internacional Comunista era que "o fascismo é a ditadura aberta do burguesia" e aplicavam a palavra a qualquer ditadura de direita; outros pensadores (como Trotsky e Ernst Bloch) tinham uma tese menos simplista: para eles, o fascismo alimentava-se da revolta da classe média (provocada, em parte, pela crise económica), revolta esse que o "grande capital" conseguia canalizar contra a esquerda e a classe operária.

Essas diferentes interpretações levavam a diferentes estratégias anti-fascistas: a primeira, apresentando o fascismo, simplesmente, como a "ditadura da burguesia", conduziu à politica das "frentes populares" (i.e. alianças entre comunistas, socialistas e liberais) - se o fascismo era, apenas, a ala autoritária do burguesia, isso significava que, para o combater, o "proletariado" (i.e., a esquerda) devia, para já, fazer uma aliança com a "ala democrática do burguesia" (i.e., os Radicais franceses, os republicanos espanhóis, etc.).

Pelo contrário, a tese que dizia que o fascismo se alimentava da revolta da classe média, implicava um caminho oposto: se a classe média está revoltada contra o "sistema", a melhor maneira de combater o fascismo seria apresentar também uma posição anti-sistema para, assim, fazer-lhe directamente concorrência no seu "mercado" - a melhor forma de combater a extrema-direita seria pela extrema-esquerda.

O que é que isso tem a ver com a questão do Estado Novo ser ou não fascista? É que a tese do "Estado Novo fascista" é uma consequência directa da posição da Internacional Comunista: o salazarismo é o protótipo da ditadura elitista e conservadora (ao contrário da sintese conservadora/revolucionária de Mussolini e Hitler). Pelo contrário, de acordo com a teoria "trotskista" do fascismo, Salazar, definitivamente, não era fascista (ele não subiu ao poder baseado em nenhuma "classe média enraivecida").

Esta dicotomia continua a ter utilidade nos dias de hoje, nomeadamente sobre qual a melhor maneira de lidar com os movimentos de extrema-direita que surgem por aí - se os virmos como uma simples versão mais hard da direita tradicional (aliás, uma série de posts que eu escrevi sobre o fascismo há uns tempos talvez tenham se aproximado demais desse simplismo), a conclusão é que a "esquerda" tem que moderar o discurso, "que está a assustar as pessoas e a levá-las para a extrema-direita". Pelo contrário, se tomarmos em atenção que a extrema-direita, muitas vezes, tem uma componente populista e anti-sistema, isso quer dizer que a esquerda se diluir no "centrão" só lhes vai dar mais força (reforça a atitude "vamos votar Le Pen que os outros são todos iguais") e que a melhor maneira de os combater é, pelo contrário, apresentando propostas de ruptura pela esquerda.

3 comments:

agitador said...

pois...esta é mais uma questão de analise do fenomeno per si.

mas nem toda a gente recorre a isto para chegar à conclusão se é fascismo ou não.

depois disto, o que há de se gritar no 25 de abril?

luispedro said...

Bons posts (este e o anterior).

pedro silva said...

"""(aliás, uma série de posts que eu escrevi sobre o fascismo há uns tempos talvez tenham se aproximado demais desse simplismo), a conclusão é que a "esquerda" tem que moderar o discurso, "que está a assustar as pessoas e a levá-las para a extrema-direita". Pelo contrário, se tomarmos em atenção que a extrema-direita, muitas vezes, tem uma componente populista e anti-sistema, isso quer dizer que a esquerda se diluir no "centrão" só lhes vai dar mais força (reforça a atitude "vamos votar Le Pen que os outros são todos iguais") e que a melhor maneira de os combater é, pelo contrário, apresentando propostas de ruptura pela esquerda."""

Exactamente!
Resta saber ,porque é que a esquerdinha que temos não faz isso...