Tuesday, July 18, 2017

Rendimento Básico Incondicional - os limites de uma ideia

A basic income really could end poverty forever - But to become a reality, it needs to get detailed and stop being oversold, por Dylan Matthews (Vox):

Basic income advocates like to talk in effusive terms about the idea’s cross-partisan appeal, how it unites radical Marxists like André Gorz and libertarians like Milton Friedman and American heroes like Thomas Paine and Martin Luther King Jr. They speak of its radical potential to remake society, and position it as an inevitable and necessary response to an incoming torrent of technological change. (...)

You can’t assume away politics, though. And when you take a look under the hood of major plans from basic income advocates, the politics begin to look daunting. The coalition between left and right evaporates, the idea’s economic inevitability looks fanciful, and the promise that the plan could end poverty forever looks more dependent on technical details than you might think. (...)

We have gone through large automation shocks before; are self-driving trucks really a bigger step than, well, trucks were? And if trucks and washing machines and all the other labor-saving inventions of the 20th century didn’t put anyone permanently out of work, but instead shifted the kind of work that was being done, why would we think matters would be any different in the 21st century? Why could the laundry workers of the 1940s find new jobs but the truck drivers of the 2020s can’t?

Indeed, as my colleague Matthew Yglesias is fond of pointing out, technological productivity growth is actually well below historical averages. These are days of miracle and wonder, but our grandparents seem to have lived through even more miraculous times and did not see work disappear in the process.


Tuesday, July 11, 2017

Exercícios para desenvolver o cérebro versus jogos de computador

O Público dá destaque a uma notícia de título "Sabe aqueles exercícios que desenvolvem o cérebro? Talvez não o desenvolvam assim tanto", dizendo que  "os exercícios cognitivos vendidos por empresas para melhorar as capacidades neurológicas não trazem mais benefícios do que um simples videojogo".

No entanto, indo ver o estudo propriamente dito (de qualquer maneira, é um ponto a favor do Público terem posto um link para o estudo na notícia - grande parte das publicações on-line portuguesas não fazem isso quando falam de "estudos", e é uma trabalheira para encontrar o estudo e confirmar se tem alguma coisa a ver com o que é noticiado) parece-me um pouco mais complexo.

Em primeiro lugar, parece-me que o que está a ser testado é mais o efeito desses "exercicios" sobre coisas ligados à capacidade de autocontrole do que propriamente à capacidade intelectual em sentido estrito:

Increased preference for immediate over delayed and for risky over certain rewards has been associated with unhealthy behavioral choices. Motivated by evidence that enhanced cognitive control can shift choice behavior away from immediate and risky rewards, we tested whether training executive cognitive function could influence choice behavior and brain responses. (...) Pre- and post-training, participants completed cognitive assessments and functional magnetic resonance imaging (fMRI) during performance of validated decision-making tasks: delay discounting (choices between smaller rewards now vs. larger rewards in the future) and risk sensitivity (choices between larger riskier rewards vs. smaller certain rewards).
Ou seja, o que está a ser testado é se os participantes, após os treinos, "aprendem" a preferir o longo-prazo ao curto-prazo e o seguro ao arriscado.

Eu posso estar completamente enganado, mas tenho a ideia que as pessoas que fazem/compram esses exercícios tem com motivação primeira desenvolver e treinar o raciocinio, conseguirem pensar mais depressa, etc., não tento aumentar a sua autodisciplina e auto controle (ainda mais que creio que esses exercicios são frequentemente direcionados para a população mais idosa, cujas preocupações sejam mais "não quer ficar senil e com o raciocínio atrofiado" e não tanto "não quero ser um esgroviado que não pensa no futuro e gasta tudo em copos, mulheres [alterar de acordo com sexo e preferência] e motos de alta cilindrada").

Ordoliberalismo e neoliberalismo

A respeito desta discussão entre Vital Moreira e João Rodrigues sobre se o "ordoliberalismo" é uma variante do "neoliberalismo", suspeito que o problema talvez esteja na história da palavra "neoliberalismo", que dá-me a ideia ter 3 sentidos distintos:

a) Nas décadas a seguir à II Guerra Mundial, era praticamente a mesma coisa que "ordoliberalismo", tendo o "neo-" o sentido de ser um "novo liberalismo", modernizado e sem os radicalismos do liberalismo clássico tradicional; p.ex., o texto de 1951 de Milton Friedman, "Neo-Liberalism and Its Prospects" [pdf] define "neoliberalismo" de uma forma praticamente idêntica a "ordoliberalismo"

b) A partir dos anos 80, "neoliberalismo" começou a ser usado pela esquerda para designar o movimento de privatização e desregulamentação da economia e redução dos impostos posto em prática por governantes como Reagan e Thatcher, e tendo como ideólogos Hayek e os economistas da Escola de Chicago, como Milton Friedman; neste sentido, o "neo-" tem um significado puramente cronológico, de ser, em termos temporais, uma nova vaga de liberalismo, depois do liberalismo do século XIX e do pré-I Guerra Mundial. Pode-se argumentar que Friedman mostra que os dois estão ligados, já que este escreveu o tal texto de 1951 sobre o "neoliberalismo" no sentido de ordoliberalismo, mas parece-me que não se pode fazer esse salto; em primeiro lugar, nem é certo que o Friedman dos anos 70/80/90/00 pensasse o mesmo que o de 1951; e, de qualquer maneira, não é por, pelos vistos, aceitar a politica anti-trust que Friedman é frequentemente chamado de "neoliberal" - é por todas as suas outras posições anti-intervenção e anti-regulação, e seria à mesma (ou se calhar ainda mais) chamado de "neoliberal" se fosse contra as leis anti-trust

c) Em certa altura, a partir dos anos 90, e com as políticas de Clinton, começou também a chamar-se, nos EUA, "neoliberais" aos "liberais" (no sentido norte-americano, isto é, social-democratas) mais adeptos de alguma desregulamentação (e talvez sobretudo dos acordos internacionais de comércio livre) - é praticamente a mesma coisa que na Europa se chamou "terceira via" (é neste sentido que, p.ex., um Brad DeLong se define por vezes como um "neoliberal"). Agora aqui, tal como no primeiro caso, o "neo-" tem a conotação de ser um "novo liberalismo", modernizado e sem os radicalismos do liberalismo tradicional - só que neste caso, o liberalismo tradicional é o "liberalismo" norte-americano dos anos 60/70. Diga-se que por vezes este sentido também se mistura com o anterior; p.ex., quando nas presidenciais de 2016 (nomedamente nas primárias Democratas) se dizia que Hillary Clinton representava as políticas neoliberais, dá-me a ideia que umas pessoas estavam a usar "neoliberal" neste sentido e outras no anterior

Por norma, o primeiro e o terceiro sentido são autoproclamados; já o segundo sentido praticamente só é utilizado pelos seus críticos.

Monday, July 10, 2017

Populismos

Há anos escrevi que "populista" quer dizer ou "politico de direita europeu de que não gosto" ou "politico de esquerda sul-americano de que não gosto".

Lembrei-me disto lendo este texto de Dani Rodrik (via Tyler Cowen):

The populist backlash may have been predictable, but the specific form it took was less so. Populism comes in different versions. It is useful to distinguish between left-wing and right-wing variants of populism, which differ with respect to the societal cleavages that populist politicians highlight and render salient. The US progressive movement and most Latin American populism took a left-wing form. Donald Trump and European populism today represent, with some instructive exceptions, the right-wing variant (Figure 2). What accounts for the emergence of right-wing versus left-wing variants of opposition to globalization?

Thursday, July 06, 2017

O Estado deve pagar o ensino superior? E a quem?

O economista inglês Andrew Lilico sugere que apenas os melhores alunos deveriam receber bolsas de estudo e os restantes deveriam pagar o custo da formação universitária.

Under this system, poor but gifted students would receive full funding and maintenance. There would be no means testing. Outside the top 10-12 per cent of students, all that the state would really be doing would be addressing liquidity issues. There would be state support only for the top 35 per cent of students.

We can afford to fund higher education to a much greater extent, but only if we do so by focusing that funding on a much smaller group of students — the most gifted being the most appropriate group to focus upon.

That does not mean that only 35 per cent of students would attend. Others would doubtless attend, funding themselves from parental resources, private sector loans or extra jobs.
Já agora, uma vista de olhos pelos motivos pelo qual ele considera que o Estado financia a educação (nomeadamente a superior):
There are three proper reasons:

1 The Externality Argument – Higher education delivers benefits to society as a whole in addition to those benefits experienced by the student herself. That means a pure market is likely to under-provide higher education (fewer people will go than is best for society).

2 The Liquidity Argument – People will gain the most from higher education if they attend when relatively young, when their minds are most flexible and they have longer post-education to reap its rewards. But early in life people will not have been able to establish a track record with banks and other lenders, and so may find it difficult to obtain loans against their future human capital improvements.

3 The Glory Argument – Once we had kings, dukes, and other Great Men of the past who acted as benefactors and promoters of art and research and other goods provided through universities. Modern governments tend to tax away much of the surplus wealth that Great Men used in this way (for other socially important programmes such as health and income support). That means there would be a loss from reduced philanthropy if the government did not at least replace the philanthropy of these Great Men.

Higher education obviously provides other important social functions, but these are not good reasons for government intervention in it. For example, one of the main purposes of higher education is as a “consumption good” — the university life, with its freedom of thought, bonding experiences and general fun is a great thing to be part of. But things we enjoy doing and benefit from are usually best paid for by us, not the government.

Similarly, much is made of the benefits of education in preparing students for working life in a modern economy — that it is an investment with a high personal return. In which case, people will be more than willing to invest and government intervention will not be needed.
As duas primeiras razões (externalidade e liquidez) parecem-me muito os que apresento aqui ("externalidade") e aqui ("liquidez"); mas Lilico é muito mais otimista face ao mercado poder resolver o fator "liquidez" - "I suspect people would find it fairly easy to borrow privately to fund education if the state did not lend to them and if financial markets were healthy (the latter possibly still not being so, post-2007)." - do que eu - "um empréstimo à educação que verdadeiramente não criasse "constrangimentos de tesouraria" ao beneficiários seria um que durante o curso pagasse, não só livros e propinas, mas também o equivalente ao ordenado que o beneficiários receberia se estivesse a trabalhar em vez de a estudar (ou talvez um valor um pouco abaixo, assumindo que estudar é mais divertido que trabalhar) e que, depois, pudesse ser amortizado em suaves prestações durante 20 ou 30 anos - ou seja, um empréstimo que cobrisse todo o custo da educação, e tivesse um prazo de amortização comparável ao período em que a educação gera rendimentos (que é basicamente o tempo de vida activa do individuo). Posso estar enganado, mas penso que não são frequentes os empréstimos com essas condições."

Mas a ideia que este artigo me despertou foi outra - até que ponto a proposta de Lilico, de que o Estado só deveria pagar a universidade dos melhores alunos (independentemente do seu rendimento), não era, na prática, o que vigorava em Portugal até 1993 (quando as propinas nas universidades públicas era simbólicas)? Isto é, os melhores alunos iam para a universidade pública (gratuita), e os outros, se quisessem tirar um curso universitário, iam para a privada, a pagar (OK, a Universidade Católica - privada, paga e para os bons alunos - sai um bocado deste esquema, mas tirando isso era a regra geral).

Tuesday, July 04, 2017

Conservadores, progressistas e "produtos alternativos"

All the “wellness” products Americans love to buy are sold on both Infowars and Goop, por Nikhil Sonnad (Quartz):

There are two Americas, we’ve been told.

There’s Duck Dynasty America and Modern Family America. There’s“gosh” America and “dope” America. Sometimes, though, Americans unite around a common idea. Like the healing powers of eleuthero root, cordyceps mushrooms, and “nascent iodine.”

Near the end of a profile of Amanda Chantal Bacon, founder of the “wellness” brand Moon Juice, the New York Times Magazine noted that many of the alternative-medicine ingredients in her products are sold—with very different branding—on the Infowars store. That’s the site run by Alex Jones, the radio show host and conspiracy theorist who has saidthat both the shooting at Sandy Hook Elementary School and the Boston Marathon bombing were staged. Moon Juice is frequently recommended by Gwyneth Paltrow’s wellness blog, Goop; it’s a favorite of Hollywood celebrities and others who can afford things like $25 “activated cashews.” Infowars, on the other hand, is a dark corner of the American right, heavy on guns, light on government intervention, and still very mad at Obama.

We at Quartz have created a compendium, from Ashwagandha to zizyphus, of the magical healing ingredients both sides of the political spectrum are buying, and how they are presented to each. We looked at the ingredients used in products sold on the Infowars store, and compared them to products on the wellness shops Moon Juice andGoop. All make similar claims about the health benefits of these ingredients, but what gets called “Super Male Vitality” by Infowars is branded as “Sex Dust” by Moon Juice.
Não me admirava que noutros assuntos (p.ex., vacinas) também haja alguma sobreposição entre a "esquerda Hollywood" e a "direita Infowars".

Thursday, June 29, 2017

Integrar os terrenos "não-cuidados" nas matas nacionais?

Ultimamente têm surgido propostas para nacionalizar, integrar nas matas nacionais, etc, os terrenos florestais considerados ao abandono.

Algo que receio nisso é que a integração nas matas nacionais pode ser o primeiro passo para um governo seguinte as privatizar, produzindo como resultado final a transferência dos pequenos proprietários para os grandes (1ª fase, com a esquerda no governo: pequenos proprietários → matas nacionais; 2ª fase, com a direita no governo: matas nacionais → grandes proprietários).

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Tuesday, June 06, 2017

Prisão perpétua para manifestantes anti-Trump?

Anti-Trump protester: 'Is this my last free birthday?' (Al-Jazeera)

More than 200 anti-Trump protesters are facing felony charges that could land some in prison for 70 to 80 years. (...)

On January 21, most of the 230 protesters and bystanders arrested the day before were charged with felony rioting, which carries a maximum prison sentence of 10 years and a $25,000 fine.

But on April 27, the Superior Court of the District of Columbia returned a superseding indictment which added additional charges for some 212 defendants, three of whom had not previously been charged.

With new felony charges including urging to riot, conspiracy to riot and destruction of property, many of the defendants are facing up to 80 years in prison. Many other defendants, among them journalists, are facing more than 70 years.

A handful of defendants have made deals with the authorities and entered guilty pleas in exchange for significantly shorter sentences.

But more than 130 of them have joined a 'Points of Unity' agreement, a collective pledge to reject any potential plea deals and reject cooperation with the prosecutors that comes at the expense of their co-defendants.